A vocação missionária

Primeira edition: Missionários de Nossa senhora da África. Sai da tua terra. São Paulo: O Recado Editor Ltda.

Amai a África 
Amai a África 
Pelas cruentas cicatrizes da escravidão, 
pelos gritos de dor 
que se elevam do mais profundo de seu ser.
Amai a África,
que em tempos passados foi cristã; 
amai-a pelos seus grandes homens, 
pelos seus santos  
Amai- a 
Pelo muito que sofrereis, 
amai-a com todas as suas raças, 
que um dia se fundirão em um só povo.
Amai- a 
Com suas lembranças, suas lendas, 
com suas tradições de respeito e de fé, 
com a resignação estóica 
que a mantém imobilizada.
Os Patriarcas amaram até as pedras do Sião, 
para eles símbolos de tantas esperanças. 
Seguindo seu exemplo, 
tudo tenho amado na África: 
seu passado, seu porvir, 
suas montanhas, seu sol e seu céu.
Cardeal Lavigerie
(Fundador da Sociedade dos Missionários da África)

África: um continente, um desafio

há 100 anos, uns senhores, representantes das grandes potências europeias, sentados ao redor de uma mesa, com um lápis e um bloco de papel, tiveram a ousadia de dividir um continente. Este ousado fato passou à historia com o nome de “Conferencia de Berlim”

para aqueles senhores, nada importavam os 2.000 povos diferentes, com suas línguas e suas culturas, que povoavam o grande continente: África. Povos que, ao longo dos séculos, tinham tentado sobreviver contra uma natureza hostil, desenvolvendo um mosaico de formas de vida com uma arte básica e vital e uma música capaz de comover os mortos, verdadeiro mundo dos vivos. Nas costas mediterrânea, árabes e berberes, profundamente penetrados por um islamismo secular; no grande deserto, o Saara, as silhuetas azuis dos Tuaregues reinando sobre um universo dourado por um sol implacável; ao sul do Saara, centenas de povos de pele mais ou menos negra perdidos nos lençóis do Sahel ou na selva virgem do equador e nos bosques tropicais: caçadores, pastores ou agricultores que somente tinham entrado na história durante o infame comércio de escravos, que ao longo de séculos estancou o continente e fechou seus povos em atitudes defensivas. 

Desde o tratado de Berlim, quando a maior parte do coração da África estava ainda por explorar, a África experimentou uma mudança profunda. Três quarto de século, quase a totalidade dos países africanos conquistaram a independência. As décadas de colonização, porém, marcaram a África, e essa marca tem um nome: dependência e subdesenvolvimento. Atualmente, a África tem uma única função no conceito mundial: proporcionar, ao menor custo possível, matérias primas, tanto minerais como agrícolas, aos países industrializados párea que eles mantenham seu contínuo crescimento de consumo e de nível de vida. 

Na luta dos grandes

Ao lado das potencias coloniais do principio do século, apareceram dois impérios lutando com pulso titânico para repartir o mundo. Na luta dos grandes, a áfrica recebe todas as bofetadas e se debate numa miséria crescente, numa luta de braço contra a miséria e a morte; uma luta na qual os mais fracos perdem todas. A África é explorada, manipulada, inundada de ideologia e armamentos, semeada de tensões e conflitos. Nesta desordem, o saldo são os milhões de tragédias humanas, que se concretizam em frias cifras; 5 milhões de refugiados, um crescimento desmesurado das cidades que recolhem em suas periferias milhares de marginalizados fugidos da miséria, em mares de choupanas onde é impossível a dignidade; centenas de milhares de pessoas torturadas pela fome, cada\ dia mais dependentes de ajuda alimenta vinda do exterior; uma ajuda que é utilizada como arma arrojada párea subjulgar os que recebem, colocando-os a serviço dos que dão

“Criar fraternidade por meio das raças 

                    e das culturas

Romper as cadeias

Apesar de tudo, apesar da exploração e da corrupção de muitos governantes a serviço somente de seus interesses e de poderosos que pagam, corrompem os inundam de armamentos; apesar da miséria e da fome, a maioria absoluta dos africanos conserva sua dignidade e segue lutando e buscando. Buscam um mundo mais humano e fraterno; buscam um lugar digno entre as nações, e relações internacionais mais solidárias; buscam respeito à dignidade e às suas riquezas históricas e culturais; buscam poder realizar-se como pessoas e como povos, usando de seus próprios recursos. Fieis à sua historia, os africanos lutam para sobreviver e para se livrarem de todas as cadeias.

Uma plenitude nova 

Para ajudar os africanos em sua busca, nasceu a Sociedade dos Missionários da África. Os missionários começaram a chegar ao coração da África quando as potencias coloniais ainda não haviam pisado em suas selvas virgens. Desde então, milhares de cristãos tem sentido o chamado o da áfrica, lhe tem dedicado suas vidas, tem se integrado e lutando pela sua libertação, criando comunidades em que os africanos podem encontrar-se e encontrar sua plenitude, animando-os a serem senhores dos próprios destinos a serviço de seus irmãos. Assim nasceu uma Igreja africana, dirigida por africanos, que conta hoje com 80 milhões de homens e mulheres nos quais está posta em grande parte a esperança da África. Não se pode duvidar de que, sem igrejas cristas, a África seria hoje um inferno. É o serviço calado dos cristãos o que mantém em muitas sociedades africanas a esperança num futuro melhor, o que mantém a luta contra os males do continente e a busca de uma plenitude nova em Jesus de Nazaré.

Hoje, mais do que nunca, a África lança um desafio à nossa humanidade e a nosso espírito cristão: a África deseja pessoas dispostas não a mandar, mas, a servir, não a impor mas a dar-se, não a dividir mas a criar fraternidade por meio das raças e das culturas, não a manter privilégios mas a criar justiça, não a matar mas a morrer, não a odiar mas a amar.

Retrato falado 

Já somamos, entre vivos e mortos, cerca de 6.500.                                      Quase 2.500 estamos vivos. Somos uma entre as diferentes famílias cristas dedicadas ao continente africano; um dos meios para responder radicalmente ao desafio da África.                                               Nascemos em 1868 da união fecunda entre um coração grande e uma visão ampla e moderna. Um ano antes, em 1867, chegava AA Argel um novo arcebispo, Carlos Lavigerie. Havia aceito abandonar sua diocese de Nancy e uma carreira prometedora na Igreja da frança, impulsionado por sua visão. Esta era o resultado de suas leituras de Livingstone e de outros exploradores da África, e de seu coração de apóstolo. Via a cidade de Argel como uma porta aberta para um continente que esperava ainda a luz do Evangelho. Para realizar seu sonho necessitava de um instrumento: a Sociedade  dos Missionários da África, que rapidamente seriam chamados padres brancos por adotarem o traje branco (gandura e burnus) dos argelinos.   

Paixão pela África 

Lavigerie não perdeu tempo. A primeira batalha a ganhar era conseguir para seus missionários a liberdade de levar o evangelho aos mulçumanos, ao que se opunha radicalmente o governo Frances de ocupação da Argélia.  Ganha esta batalha, os missionários da áfrica começaram adentrar no Saara, buscando um caminho até o interior da África. Inicia-se assim uma historia que faz parte da historia moderna da África e de todos os que pertecemos à sociedade dos Missionários da África fazemos nossa. Uma historia com suas glorias e misérias, seus êxitos e seus fracassos: a historia de um grupo de homens e muitas nações com algo em comum: sua paixão pela África.

Em 1875, parte a primeira caravana ao longo do Saara. Tragédia. Os três missionários que a compõem morrem assassinados pelos seus guias tuaregues. Pouco depois, nova tentativa com idêntico resultado. Era preciso encontrar outra via de penetração no coração do continente. A eleição é fácil: a ilha de Zanzibar, frente as costa oriental, conhecida há séculos pelos mercadores árabes. Por ali passaram as primeiras caravanas de missionários que adentraram no continente com séquito de carregadores, como nas melhores novelas de aventuras. Não ficam ao abrigo da costa, mas vão terra adentro ignorando os perigos das doenças, e sobretudo a presença dos traficantes de escravos que faziam estragos por aqueles lugares. Muitos não chegaram, ao seu destino, mas as brechas são rapidamente fechadas por novos voluntários.

Dom de muitas vidas

Foram abrindo missões no interior, antes da chegada das tropas coloniais, fazendo a própria historia. Tanganika, Uganda e seus mártires, Ruanda, Burundi, o Zaire… Muitos anos maios tarde abrem-se outros territórios de missão na áfrica Ocidental: Ghana, Mali, Burkina Fasso(Alto Volta)…

Colonização, descolonização e independência: poucas palavras encobrem um século da historia pessoal e coletiva de tantos homens e de tantos destinos: luzes e sombras que compõem o grande pano de fundo da historia do continente, que é a nossa, na medida em que participamos, por meio dos companheiros que precederam, nas lutas de tantos povos pela sua humanidade e sua dignidade; luta que, mais que nunca, pede o dom de muitas vidas, para que a historia da África continue sendo escrita com esperança.

Precisamos de

                         Homens de encontro

                         Empreendedores 

                          Comprometidos com a justiça

                          Em comunidades internacionais

Precisamos de

                     Missionários de Nossa senhora da África

Homens de encontro 

A sociedade dos Missionários da África nasceu para o risco, o risco do encontro com o homem mais distante das fronteiras da Igreja num âmbito bem preciso: o continente africano.

A paixão do encontro é semente depositada por Deus no coração do homem. Ao longo da historia, frutificou nos que fazem sua regra do caminho de quem crê. Queremos seguir as pegadas de Abraão para escutar: “Sai de tua terra e vai à terra que eu te mostrarei”. Estas pegadas ficaram impressas na experiência de Levigerie quando aceitou dedicar sua vida à áfrica:eu tenho respondido sim e me preparo para partir. Sei a que renuncio; e sei também que obstáculos posso encontrar e que posso destroçar-me neles. Mas creio não poder renunciar ao que a providencia parece pedir-me” .

O risco de abrir-se

Um longo caminho nos leva a fincar nossa tenda de nômade de Jesus na África. Pouco importa se às vezes prevalece em nós a suficiência e a superioridade na possessão da verdade; a África se descobre a nós rica em valores, variada em culturas, ancorada na vida, e nos obriga a convertermos-nos, a perder nossa alma na busca da alma da África; a abrirmos-nos inteiramente. 

Do choque do encontro. Somente o risco de abrir-se a esta riqueza de vida tem possibilitado este salto.

Na nossa historia existe um esforço sempre renovado para introduzir-nos entre os povos da África com simpatia, não obstante a dificuldade das línguas e a complexidade dos costumes para proclamar, a partir do interior, a vinda do Reino de Deus. “O conhecimento da língua nativa é indispensável para a evangelização. Quer em cada região, um missionário se encarregua de copilar e editar o mais cedo possível um dicionário. Dediquem-se a conversar com os nativos; a falar se aprende falando”. (Lavigerie)

 O risco de abrir-se produz uma fecundação enriquecedora e geradora de vida. Vida em nós que renascemos em um povo africano. vida nos africanos que aceitam o risco de abrir-se a Jesus que vive em nós.                                                                                                  “… deixando sua gloria, se fez em tudo igual aos homens”. 

A experiência que mais tem marcado a atitude missionária, a pessoa que viveu a dinâmica risco-vida até suas ultimas consequências, foi Jesus de Nazaré. E constituiu-se em norma para uma sociedade de apóstolo como nós queremos ser.

Norma que é exigência de autocrítica permanente de nosso estilo de vida, de nossas tentações de superioridade, de toda veleidade de abandono, a fim de ser testemunhas dignas de credito para os que o encontram pela primeira vez em nossos gestos.

Por tudo isto, hoje não basta conhecer os africanos, falar suas línguas, penetrar seus costumes. Faz falta conviver, experimentar a aproximação dos mais pobres, contribuir para a construção de uma sociedade nova, mais justa e mais africana, aceitando as etapas, a lentidão e muitas vezes a ineficácia até chegar a plenitude de Cristo. Em definitivo, nós temos que nos deixar evangelizar pelos pobres.  Nosso fundador plasmou esta realidade em palavras do grande apostolo Paulo que se converteram em nosso lema: “fazer-nos tudo para todos”.

Pode haver mais risco que um aparente, mas possível, desdobramento de nossa personalidade? Assim o expressa um companheiro:                                                                                                  “posso dizer sinceramente  que me sinto realizado, apesar de que eu sofro frequentemente. O que quero é sentir-me em sintonia com aquele que é o Caminho a Verdade e a vida. Aquele que habita em nós, em  você e em mim. Isto sim é que é uma norma! Discípulo “habitado”, pobre e sem nenhum recurso, para que o Senhor lhe seja tudo. Eis aqui ao que nosso mundo aspira, seja no Ocidente, seja no Oriente. O que te parece?

Venha e veja 

 Nossa marcha parece-se cada dia mais com os precedentes da travessia do deserto em busca do verdadeiro rosto de Deus, da autentica imagem do homem.                                                                       Nesta peregrinação, esta sociedade missionária que viu sua primeira luz precisamente nas proximidades do imenso deserto do Saara, recebe hoje sua interpelação mais radical de uma tradição religiosa que traduz as aspirações de alma nômade: o islamismo. Como e porque pregar uma nova religião a gente que já tem uma profunda tradição religiosa, aparentemente, impermeável à mensagem cristã? “venha e veja” é a única resposta valida que podemos dar a nós mesmos, a igreja e ao mundo.

Para nós a semeadura 

Pequenas comunidades de homens que se arriscam no encontro, imerso num mundo cultural e religioso absolutamente outro, em permanente estado de serviço, proclamam que a melhor parte é o testemunho, enquanto que o fruto do esforço é assunto de deus. 

O mais maravilhoso e misterioso de nossas vidas é que, apesar de nossas influencias, muitos africanos tem encontrado em nós e seguem encontrando a promessa de uma plenitude de vida em Cristo Jesus e aceitam o risco de perder sua vida no seio de uma comunidade de cristãos. Assim, Cristo se tem feito presente e desta presença tem nascido e segue crescendo a igreja da África. E quando nasce uma comunidade cristã que não necessita mais de missão, nós recolhemos nossa tenda e vamos mais adiante, até um novo encontro. Nossa especialidade é a semeadura, não a colheita. 

“marchava como se visse o invisível”. Referencia bíblica rica em evocações que infundem confiança num momento em que, ao melhor, te toca arriscar. Referencia rica em presságios que denotam esperança quando necessitas de fé na vida.

Empreendedores 

Lavigerie fundou uma sociedade de missionários a serviço da igreja universal para a evangelização da África. Sua visão era a de uma igreja dirigida pelos africanos mesmos. Um dos frutos mais visíveis dessa visão foi que, em 1937, cinquenta anos depois da chegada dos primeiros Missionários da África em terras ugandenses, foi ordenado o primeiro bispo africano dos tempos modernos, e que, hoje, a Igreja africana é dirigida quase em sua totalidade por bispos africanos.

Caminhar com os africanos que aceitam o risco de seguir a Cristo, nos tem obrigado a diversificar nosso serviço às comunidades cristãs, adaptando-nos às necessidades dos diferentes grupos.

Formando líderes 

Temos dado, desde nosso inicio, muita importância à formação de líderes. Se existe algo que nos distingue e de que podemos sentir-nos orgulhosos, é ter introduzido nos métodos de evangelização uma prática dos primeiros séculos da Igreja, uma preparação longa e metódica para o batismo: o catecumenato de 4 anos. Esta opção não se podia levar a cabo sem a formação de milhares de convertidos no pilar fundamental das Igrejas africanas. Inumeráveis catequistas dedicados, com paixão e grande sentido da responsabilidade de sua missão de fundadores e animadores de comunidades cristãs, foram os que tornaram possível a eclosão e o surpreendente desenvolvimento da Igreja na África.

Outra prioridade tem sido sempre a formação de um clero local. Centenas dentre nós tem se dedicado e seguem dedicando suas vidas aos seminários, não para aumenta nossas próprias fileiras, mas para criar um clero diocesano sólido que possa levar a cabo a evangelização de seus irmãos sem depender de nós, e permitindo-nos recolher as nossas coisas para começar em outro lugar.                              Temos nos esforçados para sermos fieis à inspiração de Levigerie que estava convencido de que “como missionários, devemos ser iniciadores, mas a obra duradoura deve ser levada a cabo pelos africanos”. Um dos resultados indiretos da formação de lideres consiste no fato de que muitos cristãos tem lutado nas primeiras linhas pela independência de seus países.

Igreja adulta 

Com a onda de independência da década de sessenta, surge com força nos africanos o desejo de serem autossuficientes em todos os setores: econômico, político, social e religioso, pelo que o trabalho de formação dos responsáveis das Igrejas africanas se faz mais incerto por causa da instabilidade econômica e política que, a cada dia mais, caracteriza a África. Em 1967, todos os missionários foram expulsos da Republica de Guiné. Apesar da expulsão, a Igreja desse país é hoje uma das mais sólidas  e das que tem maior porcentagem de vocações sacerdotais e religiosas. Isto foi possível porque os africanos estavam  capacitados para cobrir a brecha aberta coma expulsão dos missionários. Este caso demonstra o que quer dizer ser iniciadores: preparar os africanos em todas as áreas de responsabilidade para que possam, o quanto antes, tomar as rédeas dos próprios destinos.

Comunidades de base 

Nestes últimos anos, a face da Igreja da África está mudando. Já são muitos os milhões de cristãos, embora uma grande parte do continente esteja, infelizmente, sem evangelização. Damo-nos conta de que existe um perigo de massificação; o perigo de que cristãos se convertam em um rebanho apático. Pretendemos que as comunidades não sejam elementos passivos, mas protagonista. Está se optando por integrar os cristãos em pequenas com unidade nas quais todos tenham suas responsabilidades. Nas palavras de Monsenhor Anselmo Sanon, bispo do Burkina Fasso (Alto Volta). “Temos que construir uma igreja de leigos”. Pouco a pouco, as comunidades cristãs respondem aos desafios que se lhes apresentam; aprofundam sua fé, comprometendo-se no desenvolvimento e na ação por uma sociedade mais justa, encarregam-se dos enfermos e marginalizados.

Esta transformação das comunidades cristãs está motivando muitos cristãos a comprometerem-se com uma infinidade de serviços que este novo modelo de comunidade necessita: responsáveis pela comunidade, dirigem a oração de grupo, a ação social, as finanças, a evangelização… todas as pessoas são chamadas a tomar parte ativa na vida e no compromisso do grupo.

Neste contexto, o sentido de nossa esperança muda. Trata-se não de organizar de fora, mas de animar de dentro, de suscitar lideres e de ajuda-los em uma formação por meio de encontros regulares com os diferentes responsáveis onde se compartilham experiências e dificuldades. Tende-se a uma maior fidelidade ao Evangelho para que as comunidades cristas possam ser células vivas e vivificadoras no mundo em que vivem, e sejam testemunhas mais transparentes do reino.

Comprometidos com a justiça 

Num mundo dividido, caracterizado por classes, pela hipocrisia e pela opressão, Jesus anunciou a vinda do Reino, a chegada de um mundo novo, de uma comunidade de homens e de povos motivadas pelo amor. A qualidade de suas relações pessoais com os pobres e marginalizados e o sacrifício de sua vida são o principio deste mundo novo.

Seguindo a Jesus, os missionários da África, somos consistentes de que a transformação do mundo em direção da justiça é uma dimensão constituída da evangelização e nos comprometemos a colaborar com  os africanos em seu desejo de liberdade e de plenitude.

Em cada homem to de nossa historia temos estado de dependência das necessidades dos povos da África. Nosso fundador, o Cardeal Lavigerie, nos ensinou o caminho quando se lançou, com todas as suas forças, na campanha antiescravista para eliminar da áfrica os últimos vestígios de infame mercado de escravos.

Desde o século XIX estávamos convencidos de que devíamos fazer o possível para criar as condições sociais e políticas necessárias para a expansão do cristianismo. Assim, temos colocado, como papel fundamental, a educação e a assistência à saúde, para combater o que víamos como os maiores males da África: a “ignorância” e as enfermidades. Os africanos reconhecem hoje os resultados da dedicação dos missionários. 

 “Comprometemo-nos                                                                                             a colaborar                                                                                                                 com os                                                                                                        africanos em                                                                                                      seu desejo                                                                                                           de liberdade                                                                                                            e de plenitude”

Novos tempos, novos caminhos

Com a independência da maioria dos países africanos na década de sessenta, o panorama mudou. Foram entregues hospitais e escolas aos novos Estados, liberado pessoal e energias para o desenvolvimento em um campo mais amplo estendendo e radicalizando a luta contra a miséria. Os missionários fazem poços, organizam cooperativas, ensinam o uso de fertilizantes… fazem todo o possível para ajudar onde o Estado não chega, a fim de melhorar o nível de vida e solucionar os problemas mais urgentes produzidos pelo subdesenvolvimento.

Nos últimos anos, demos conta de que este esforço não basta, pois o ambiente degenera apesar de tudo o que fazemos. Assistimos na África uma desintegração generalizada do ambiente social, econômico e político. Os governos dos países independentes não somente tem sido incapazes de criar o “paraíso” que haviam prometido, mas tem sido imponente ante a crise total das sociedade africanas. Esta crise tem raízes profundas no passado da áfrica e tem se agravado tragicamente pela ma administração, a crise energética, a exploração neocolonial, a luta das grandes potencias pelo controle das zonas estratégicas do continente e por todo um processo descontrolado de desintegração social e de emigração rumo às cidades. A África está se convertendo rapidamente em um continente de marginalizados que vivem em campos de refugiados e nos subúrbios das grandes cidades.

Como Missionários da África, temos ante nós um desafio a que não podemos esquivar-nos: solidarizarmo-nos com os pobres e denunciar todas as estruturas locais e mundiais, que aprofundam a pobreza. Temos que usar de nossa imaginação para encontrar caminhos novos que levem ao desenvolvimento integral dos africanos, inclusive arriscando a própria pele.

Opção pela justiça

Optamos decididamente pela justiça. Pela defesa dos pobres, fracos e marginalizados e pela defesa de seus direitos. Não nos contentamos em compartilhar a vida dos africanos. Temos de denunciar as injustiças, as estrutura que as mantém e os grupos humanos que delas se beneficiam. Queremos fazer tudo o que está em nossas mãos, na África e fora dela, para que nasça um mundo mais justo.            Para nós, a única maneira de tornar presente na África este novo mundo que anunciou Jesus, é trabalhar pela justiça e pelo desenvolvimento integral de todos os africanos. 

Em comunidades internacionais 

A corda de três fios não se rompe facilmente. A união faz a força. Nós, os Missionários da África, optamos por viver em comunidade: compartilhar um mesmo teto, rezar e suar debaixo do mesmo sol da áfrica, rir e chorar juntos. Nosso fundador nos deixou o que chamamos a regra de três: “Nunca sejais menos que três. Esta é a lei essencial que eu vos deixo”. Pequenas comunidades de homens dispostos a seguir o modelo, mas juntos. 

Comunidade de irmãos 

Num continente caracterizado pelas grandes distancias, a pobreza de meios materiais e assistenciais e as dificuldades de comunicação com suas gentes por causa das diferenças entre nossas culturas com as suas, torna fundamental pertencer a uma comunidade. Depois de dias por aldeias e povoados, convivendo com agricultores e pastores, enriquecendo-se com sua hospitalidade, amizade a sabedoria, ajudando-os em tudo e falando-lhes de Jesus Cristo quando se pode, sente-se a necessidade de voltar para casa, de descansar no oásis de uma comunidade. No regresso, muitas vezes cansado, os companheiros te acolhem, te perguntam pelos cristãos e pelos catecúmenos, por este e por aquele, pedem noticias dos povos, do estado das civilizações, e das estradas, e perguntam sobre as mil coisas que constituem a trama cotidiana dos homens em qualquer sitio do mundo.                                                                                         “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estarei eu no meio deles”. Vivemos e trabalhamos sempre em comunidade porque é evangélico e é um sinal de unidade. Os africanos vivem em grandes comunidades familiares e não podem compreender um homem vivendo sozinho.

Convivemos, pois, com companheiros que tem os mesmos ideais, dedicando suas vidas à África e às suas gentes. A comunidade é um meio para cultivar verdadeiras relações humanas, amizade, solidariedades e compreensão. Além disso, o espírito comunitário é contagioso: quem vive, o transmite, e nosso fim primordial é criar uma família em torno de Jesus de Nazaré.

Homens que rezam 

A gasolina de nossos motores é a união com Deus e por isto nos reunimos para orar juntos. O exemplo do companheiro anima a estreitar nossa relação com Deus. Cristãos, muçulmanos e animistas costumam falar de nós como homens que rezam.                                                               Dizem os africanos que, unidos, é possível transportar um elefante sem tocar o chão. Nossas comunidades, formadas do que cada um é de dá, trabalham em comum: inventam, projetam, realizam, criticam seu próprio trabalho… toda a atividade pessoal se converte assim em algo de todos. E também juntos descansamos e nos divertimos, aprendendo com os africanos que nos ensinam o sentido da festa.  

Unidade na diversidade

Nossas comunidades são, alem disso, internacionais: “Quero que representeis a todos os países. Meu desejo é que vossa pequena Sociedade seja a primeira entre as que se dizem católicas. (Lavigerie)

Viemos de 28 países diferentes e nossas comunidade vão do branco ao negro passando pelo amarelo. Na áfrica do tribalismo, comunidades internacionais são testemunho vivo de abertura, tolerância e convivência. A internacionalidade nos enriquece e enriquece os povos com os quais convivemos. Aprendemos a relativizar certas facetas de nossas próprias culturas. Viver e trabalhar com companheiros, de nações e culturas diferentes, alem de ser testemunho de universidade, é a maior preparação para conviver com os povos da África em sua magnífica variedade, respeitando suas riquezas e evitando transplantar para eles os modelos de uma igreja da Europa ou da America.

E assim,                                                                                                           em comunidade de homens                                                                        abertos ao encontro da África,                                                                      com o Evangelho nas mãos,                                                                           para caminhar com ela                                                                                    e suscitar líderes                                                                                          que construam na África o reino:                                                                um reino de justiça, de amor                                                                             e de paz.

Formação do missionário

Se queres dar uma resposta radical e eficaz ao desafio da África, formando parte da Sociedade dos Missionários da África, e tens o 2º grau ou outros estudos similares, estas são as etapas que te esperam no teu caminhar: 

Ciclo nacional 

Futuros padres ou irmãos: fazer o curso de filosofia numa da faculdades de Curitiba. Durante este tempo, vive-se na casa dos Missionários da África e, pelo estudo, a partilha, a reflexão, a oração e o intercambio com outras comunidades cristãs, alcança-se maturidade na fé e no compromisso em servir à África.                    Durante este tempo, aprende-se Frances ou inglês, para preparar-se para as etapas posteriores, caracterizadas pela internacionalidade: essas línguas são essenciais para um trabalho na África. 

Formação espiritual

Depois de passar pelo ciclo nacional, vive-se durante um ano, junto com pessoas de outras nacionalidades, uma experiência centrada na oração pessoal e comunitária, em atitude de escuta da Palavra, para melhor conhecer a si mesmo… e ao outro e para poder comprometer-se em plena liberdade ao serviço do Evangelho na África.

Formação apostólica 

Completado o tempo de “deserto”, passa-se a viver em um país africano durante dois anos. Depois de seis meses dedicados ao estudo da língua africana local, participa-se no trabalho de uma comunidade internacional, iniciando-se nos diferentes aspectos do que constitui nossa vida na áfrica. 

Formação teológica 

A formação básica como missionário da África se completa num centro teológico da Inglaterra, na França ou África durante três anos, de tal maneira que a experiência seja acompanhada de uma reflexão, a oração e a ação – é coroada pelo compromisso alegre, total e definitivo, ao serviço do Evangelho na Sociedade dos Missionários da África.

Formação contínua

Nossa vida quer responder, a cada dia, ao complexo desafio que nos Propõe a África. Por isso, nossa formação não pode terminar com nosso compromisso, mas continuará com diversas formas durante toda nossa vida. Fazem falta especialistas para formação de líderes, para a direção de catequistas, para os programas de desenvolvimento e para todos os diversos aspectos que formam a riqueza da Igreja da África. E todos, inclusive aqueles que não se especializam, tem que poder adaptar-se às mudanças contínuas que se produzem, para o que é necessário manter uma grande disponibilidade e agilidade mental. Isto se consegue com uma reflexão continua e com momentos fortes de reflexão (ex: cursos, palestras, anos de estudos) dosificados segundo as necessidades dos indivíduos e dos grupos cristãos com os quais se trabalha.

Dessa maneira nos mantemos nômades de espírito, sempre dispostos a começar de novo, em outro povo, em outro trabalho, com outras gentes, quando o exigem as circunstancias, para poder oferecer à África o tipo de serviço que nos faz discípulos d’aquele que deixou a companhia de seu Pai para caminhar com os homens.

Um ideal – vários caminhos 

Todos os Missionários da África compartilham um ideal: ser o Cristo vivo no meio dos africanos, para que todos o conheçam e o amem. Mas nem todos o fazemos da mesma maneira. Existem três caminhos abertos na Sociedade dos Missionários da África.

Sacerdote: com um compromisso por toda a vida.                                      Irmão: com um compromisso por toda a vida.                                              Associado: com um compromisso temporário 

Sacerdote e leigos com uma profissão de nível universitário podem pertencer temporariamente à Sociedade dos Missionários da África por tempo mínimo de três anos e um período de preparação de um ano para integrar-se nas nossas comunidades e poder adaptar-se ao trabalho na África. 

“Chegou a hora de a America Latina intensificar o intercambio entre as Igrejas particulares, de projetar-se além das próprias fronteiras, ad gentes…                                                                                        Devemos dar de nossa pobreza”                                                                  Puebla 368

Tens coragem?

Diz-me que sim                                                                                                      e te darei gratuitamente,                                                                                   para ti, para sempre,                                                                                              os cumes mais altos do Kilimanjaro,                                                                     os imensos lagos africanos,                                                                                      as ardentes areias do deserto.

Diz-me que sim,                                                                                                             e porei com mão cheia,                                                                                           em teu coração,                                                                                                        o feitiço de mil ritmos de Tam-tam,                                                                        e caravanas acompanhadas de camelos.

Diz-me que sim,                                                                                                      e receberás em recompensa                                                                                      toda a paz do deserto,                                                                                          as profundas noites africanas                                                                                     com o cintilar de estrelas                                                                                                      e o duende das selvas virgens.

Diz-me que sim,                                                                                                         e serás pastor de tribos numerosas                                                                         por caminhos de luz e de água,                                                                         farei de ti pai                                                                                                                           de um imenso povo novo,                                                                                    e tua paternidade, te juro, será eterna. 

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