Lavigerie e a Escravidão

Em memória do Pe. Hubert Roy, autor do livro Lavigerie O Cardeal que enfrentou os traficantes de escravos.

Primeira Parte

A Campanha Anti Escravatura

1 – O GRITO DA ESCRAVATURA


“Levareis à África, desolada pelos horrores da escravidão, a paz, os dons de Deus… A paz, é o que a África mais precisa obter, neste momento da misericórdia de Deus. Quanto sangue derramado! Quantas crueldades! Quantas pobres mulheres caçadas com violência e levadas para os mercados do interior, em meio aos mais terríveis sofrimentos! algumas entregues nos mercados como gado para servir de instrumento aos deboches do dono, esperando como vitimas de sua crueldade! É esse espantoso espetáculo que vos espera… é isso que testemunhareis desde vossos primeiros passos nesta terra que vai tornar-se vossa” diz Lavigerie aos seus missionários.

Leão XIII, na sua carta sobre a escravidão “In Plurimis”, dirigida aos Bispos do Brasil, escreve: “Reconhecereis no caminho de vossas Missões, os ossos dos pobres negros mortos do cansaço, do sofrimento, de fome, de miséria, com feridas cruéis, antes mesmo de chegarem ao mercado onde deveriam ser vendidos. Lavigerie, sabendo que o Papa Leão III iria dirigir uma carta-encíclica aos Bispos do Brasil por ocasião da assinatura do decreto de emancipação dos dois milhões de escravos, pelo Imperador D. Pedro, pediu a Leão XIII, por carta no dia 16 de fevereiro de 1888, para incluir um trecho repudiando o horror até então vivido pelos escravos africanos. E o Papa introduziu na encíclica de maio de 1888 trecho acima. A exportação de escravos negros remonta à mais alta antiguidade: os gregos, e sobretudo os fenícios, os egípcios e os romanos apreciavam muito os “nubiens”, “etiopiens” e “conchitas”. O Islã incrementou este comercio por sua conta, quer pelas vias “transaarianas”, pelo Mar Vermelho e pelo Oceano Indico. Houve também escravos brancos, a serviço do Império do Mali… A escravatura praticada pelos Europeus teve inicio no século XVI após as descobertas portuguesas… criou novos povos deste lado do atlântico, as populações afro-americanas, que tomam consciência hoje de suas ligações com a origem ancestral. Ate 1850, a Europa e a America ignoravam quase tudo sobre o interior da África, os africanos do interior não conhecia o europeu. Foi necessário meio século de exploração para que o mundo europeu e o mundo africano se encontrassem… Com quais preconceitos e a preço de quantas incompreensões! No ultimo capitulo de seu memorial à Congregação da Propaganda (1877), o Bispo Lavigerie sublinha e acusa a nova orientação da Associação Internacional de Bruxelas: Preferem-se as descobertas cientificas e usam-se os escravizadores que tem passagem no continente africano. Pede à Igreja para assumir a responsabilidade diante de fatos que denuncia com vigor, no estilo do seu tempo. “Ao menos que viva na África em contato com os negros que são escravos ou que foram, é impossível fazer uma exata ideia dos crimes, das crueldades, das infâmias de todo gênero que levam à escravidão e ao comercio de escravos. Digo sabendo o que se faz, neste momento em que escrevo estas linhas (1877), do que vi com meus olhos ou escutei da boca das tristes vitimas destas infâmias, os vários acontecimentos do passado”. “Muitas vezes as expedições limitam-se à caça de indivíduos isolados, de mulheres e crianças que se afastam de suas casas. Mas muitas vezes também ocorrem assaltos bem preparados. Os lugarejos pacíficos do interior são cercados de repentes, durante a noite por estes ferozes aventureiros. Os negros, que não tem armas de fogo, quase nunca se defendem, ou quando o fazem são logo mortos por homens armados até os dentes, estes infelizes fogem nas trevas; mas os que são apanhados, são amarrados imediatamente, homens, mulheres e crianças são levados em direção a um mercado do interior. Na nossa região, Tombouctou é o mercado principal. São conduzidos de regiões situadas a sessenta, oitenta e ate cem dias de caminhada. Então começa para eles uma serie de torturas e sofrimentos. Todos estes escravos vão a pé; os homens que parecem mais fortes e dos quais se poderia temer uma revolta, tem suas mãos, e algumas vezes os pés amarrados, de tal forma que a marcha se lhes torna um suplicio; sobre seus pescoços colocam-se cangas, com reentranças, que prendem vários entre si. Anda-se o dia inteiro. Ao fim do dia, quando se para pra descansar, distribui-se aos presos um punhado de cevada ou sorgo cru. É toda a sua comida,. No dia seguinte é preciso partir novamente. Mas desde os primeiros dias, as fadigas, a dor, as privações enfraquecem alguns. As mulheres são as primeiras. Então, a fim de apavorar este infeliz rebanho humano, seus condutores se aproximam das que parecem mais esgotadas, armados de um pau e, com um golpe terrível sobre a nunca das vitimas infortunadas, as derrubam, enquanto soltam um gritos de dor, contorcendo-se nas convulsões da morte. O rebanho amedrontado recomeça logo a andar. O pavor deu forças aos mais fracos. Cada vez que alguém fica esgotado. O mesmo horrendo espetáculo recomeça. Ao fim de mais um dia, chegando ao lugar da nova parada, um espetáculo não menos horrível os espera. Estes traficantes de homens adquiriram experiência acerca do quanto podem suportar suas vitimas. Uma olhada e eles sabem quais estão para sucumbir à fadiga. Então, para poupar a escassa comida, passam por trás destes infelizes e, com um golpe de pau, os matam. Seus cadáveres ficam ali mesmo, e é perto deles que os companheiros são obrigados a comer e dormir. Mas que sono! Pode-se adivinhar sem esforço. Entre os jovens negros arrancados por nós deste inferno e devolvidos à liberdade, há os que acordam toda noite, durante muito tempo ainda, dando gritos espantados. Reveem, em seus pesadelos atrozes, as cenas abomináveis de que foram testemunhas. E acontece assim, algumas vezes durante meses inteiros, e depois diminui a cada dia… Enfim, chega-se ao mercado aonde é exposto o resto destes desafortunados, após tal caminhada. Muitas vezes chegou apenas a terça ou a quarta parte, algumas vezes menos ainda dos que foram capturados. Começam cenas de outra natureza, mais não menos odiosas: os negros cativos são expostos para venda como gado; inspecionam-se seus pés, suas mãos, seus dentes, todos os membros de seus corpo, para se saber que serviços deles se podem esperar. Discute-se o preço diante deles como o de um animal; quando pagos, pertencem corpo e alma a quem o pagou. Nada mais é respeitado: nem as ligações de sangue, pois separam, sem piedade, o pai, a mãe, as crianças, apesar de seus gritos e de suas lagrimas; não tem consciência, pois devem aceitar, logo, a religião do muçulmano que os compra; nem mesmo o pudor, pois devem submeter-se às mais vergonhosas exigências. Enfim, as suas vidas ficam à disposição dos que os possuem. Ninguém, na África central, presta contas da morte de seus escravos… A escravidão africana é fruto da pilhagem, do roubo, da rapina. A escravidão, com este cortejo fúnebre de assassínios, de imoralidade, de falta de humanidade, não foi ainda condenada com suficiente indignação pela Igreja, e os missionários, apesar da dedicação e zelo, não conseguem adulá-la, que espetáculo de grandeza não oferecia ao mundo um Papa enviando apostolo para o centro da África, até hoje inacessível, com a missão, abertamente assumida, de acabar com a escravidão; um Papa condenando, em nome do Evangelho e das tradições constantes da Igreja, os horrores que desonram toda a família humana.
E nós sabemos o quanto Leão XIII encorajou Lavigerie na sua luta anti-escravista Após os apelos de Leão XIII e de Lavigerie, as nações realizaram Congressos e assinaram protocolos onde figuravam medidas humanitárias que talvez não aparecessem sem a existência determinantes das comissões anti-escravistas que Lavigerie criara. No fim de sua vida, ao termino da sua famosa campanha anti-escravista, o Cardeal Lavigerie manifestou mais uma vez sua confiança pessoal em nossa Senhora da África, criando uma “Associação de Orações Publicas para a Abolição da Escravidão Africana” (abril 1889). Conseguiu que Leão XIII a elevasse a Arquiconfraria de Nossa Senhora dos Escravos”.

II – LIBERDADE E PROGRESSO


Figura de proa na luta anti-escravista, Carlos Lavigeire foi de 1867 a 1892, Bispo da Argélia, no norte da África. Os historiadores seculares que estudam os seus escritos, e sobretudo suas atividades de explorador, admitem seu temperamento de conquistador e sua inteligência de antigo professor da Sobonne em 1853 (Universidade de Paris). Os historiadores cristãos vão mais longe, e descobrem um homem que crê em Jesus e que quer apresenta-lo aos seus contemporâneos. Com paixão! Carlos Lavigerie nasceu no dia 31 de outubro de 1825, perto de Bayonne (França), num meio burguês-progressista. Muito jovem foi alimentado pelas ideias de liberdade e de progressos; desconfiava de um cristianismo conformista.
Quando foi ordenado sacerdote, em 1849, já sentira o chamado à vida missionária, após uma palestra dada em maio de 1844 no seminário “Saint Sulpice” por um bispo de Mandchourie (Ásia) que contou a sua vida La, as rudes dificuldades, as misérias, mas também as alegrias puras e as esperanças maravilhosas. Os jovens ficaram apaixonados pelos testemunhos vividos nos países e com os povos de tão longe. Compreenderam melhor que a Boa Nova de Jesus é para todo mundo. Carlos contaria mais tarde que foi então que sentiu crescer nele um atrativo para a missão distante; é o vento do mar que infla a vela, mesmo que seja preciso, antes disso, completar “a carga do barco”, continuando os estudos.
Em Paris, doutourou-se em letras e em teologia.
Fez parte, durante 12 anos, de um grupo de sacerdotes “parisienses” pioneiros no caminho da renovação intelectual, apaixonados pelo ideal apostólico. Este grupo, liberal e reformista, queria compreender a sua época; situando-se no lado oposto dos católicos “intransigentes”, dava maior importância aos valores naturais, para desenvolver o cristianismo.
Em 1853, Lavigerie foi nomeado Professor de Historia da Igreja na Sorbonne. Ensinou a expansão do cristianismo nos primeiros séculos e se apaixonou pelo estudo das escolas catecumenais e teológicas deste primeiro período missionário.
Nas suas pesquisas pessoais e nas lições, Lavigerie inclinava-se mais a aprender com os acontecimentos do que a inspirar-se escrupulosamente, nos ensinamentos clássicos. Seus anos como professor desenvolveram nele o sentido da Igreja no “tempo do mundo e contribuíram para amadurecer as concepções apostólicas do futuro Primaz da África”.

III – ESPIRITO ECUMENICO

1857 Oferece a Lavigerie uma primeira luz em direção à vida missionária: foi nomeado diretor da Obra das Escolas do Oriente. Fundada dois anos antes, esta obra pretendia preparar, pela conscientização das massas, a volta dos cristãos orientais separados da unidade romana.
Em 1860, os cristãos do Líbano e da Síria são massacrados e pilhados pelos Drusos. Lavigerie vai visita-los e ajuda-los. Durante a viagem, descobre civilização árabe, os muçulmanos e as igrejas do Oriente. La confirma sua vocação missionária. Foi, e diriam a ele mais tarde, seu “caminho de Damasco”. O extravio da vida missionária não o deixará mais; experimentara, para não mais esquece-la, a alegria que da a doação generosa de si mesmo. Desta viagem pela Síria lhe ficara também a nostalgia do Oriente. Mais tarde, às suas empreitadas africanas, juntará uma obra capital: o Seminário de Santa Ana em Jerusalém.
Estava persuadido de que a ação dos missionários latinos no Oriente Médio não servia à causa da união das Igrejas. De fato, o Patriarca latino de Jerusalém esforçava-se por trazer para o catolicismo os “melquitas” separados, fazendo-os adotar o rito latino. Para Lavigerie, isto era um erro: a primeira condição para a união das Igrejas era testemunhar uma maior estima pelo caráter dos povos orientais e um maior respeito por suas tradições teológicas, canônicas e litúrgicas. Com a experiência que adquiriu visitando as comunidades do Oriente, e graças à sua compreensão da sensibilidade oriental, está convencido da necessidade de fundar seminários para o clero oriental, formando e educando segundo seu rito e sua cultura, e não segundo o modelo europeu. Assim Lavigerie reagia contra a tendência natural de muitos ocidentais que reprovavam a condenavam tudo o que não estava de acordo com eles. E, no entanto, a Igreja do Ocidente era filha da Igreja do Oriente.
A seu ver, só os preconceitos separavam, desde o Cisma de Flotino, no século IX, os orientais dos latinos. Lavigerie pensava assim cem anos antes do Papa Paulo VI e o Patriarca Athenágoras suprimirem os anátemas entre Roma e Constantinopla!
A fim de fazer triunfar suas ideias, Lavigerie postulará, em 1873, o Patriarcado de Jerusalém. Não lhe será concedido, mas em 1877, obterá para a Sociedade dos Missionários de Nossa Senhora da África a guarda do Santuário de Santa Ana em Jerusalém.
O primeiro motivo de sua decisão é oferecer à sua Sociedade Missionária nascente a oportunidade “de servir no Santuário da Santíssima Virgem”, o mais precioso universo, porque é o lugar de sua concepção imaculada e de seu nascimento.
Escreverá também: “Estou persuadido, como sempre fui, de que nunca pude fazer nenhum bem que não fosse pelo intermédio e pela proteção especial de Maria, da qual senti muitas vezes os efeitos de uma maneira extraordinária. Creio que os Missionários de Nossa senhora da África nunca farão nada sem seu socorro. Coloca-los perto do berço, no meio das lembranças mais dolorosas e mais sagradas de sua vida, me parece, por isso, um penhor de sucesso.”
Em 1881 abrirá em Jerusalém uma escola apostólica consagrada à formação do clero católico “grego-melquita”: Os padres considerarão como inimigo capital de sua obra tudo o que possa trazer suspeitas, mesmo de longe, de latinização. Todas as rezas às quais assistirão as crianças serão do rito grego. Não concordará, sob vãos pretextos, introduzir no meio delas novas devoções ou novas cerimônias copiadas da Igreja do ocidente. Serão mantidas cuidadosamente no seu rito, na sua língua litúrgica, nos seus usos legítimos”. Pedirá a Roma que os Missionários de Nossa Senhora da África que estão em Santa Ana possam celebrar no rito “greco-melquita”; esta permissão virá …em 1927!
Lavigerie sentiu a necessidade urgente de acabar com a separação religiosa. As diferenças culturais e espirituais não podem impedir a solidariedade humana; e seria desonesto pregar a fraternidade universal de Jesus sem partilhar com todos a Boa Nova da misericórdia de Deus para com todos.
A história bem compreendida mostra que o cristianismo apareceu primeiramente nas terras do Oriente, mas não para se tornar a religião de um povo, de uma raça ou cultura: seria tolice pensar, só porque muitos povos pagãos do Ocidente acolheram a mensagem de Jesus, que o cristianismo é a religião do Ocidente.
Lavigerie teve ocasião de conhecer os povos árabes do Oriente quando, em 1860, foi socorrer os cristãos que sofria no Líbano e na Síria. Não eram estes árabes descendentes de ancestrais que foram os primeiros missionários de Jesus no mundo dos gregos e dos romanos?
Com espírito ecumênico prematuro para o seu tempo, escrevia: “as dificuldades para a união são grandes sem duvidas; a união pode ser obra de um dia; mas isso não é razão para que não se trabalhe com coragem e caridade”.

IV – JUIZ E PROFETA

Em seu regresso do Oriente, Lavigerie tornou-se membro do Tribunal Eclesiástico da Rota, em Roma, onde criou fortes amizades. Adquiriu também um grande conhecimento do mundo pontifício e das estruturas da Igreja. Rapidamente brota nele uma convicção: a necessária internacionalização destas estruturas. Censura o “governo romano”, a Cúria, por não ser um “governo católico”. Mais tarde, em 1875, escreveu: “Minha missão é começar a “desitalianização” da Igreja, tudo me preparou para isto: meus estudos, minha passagem em Roma, minha participação nas causas do episcopado Frances e, enfim, meu apostolado na África”.
Em 1888, quando toma conhecimento de uma ação prematura para escolher um cardeal estrangeiro como sucessor de Leão XIII, ousa escrever: “Jamais os cardeais italianos nomearão um estrangeiro, pois são a maioria. A única coisa pratica a fazer, nesta ordem de ideias, é convencer o Papa a aumentar, progressivamente, o numero de cardeais não italianos. Isso poderá ter resultados daqui a cem anos.”
A história lhe dará razão, com a eleição do polonês Karol Woitila, o Papa João Paulo II.

V – BISPO, MISSIONARIO, FUNDADOR

EM 1863, com 38 anos, Lavigerie é bispo de Nancy. Escolhe seu emblema: o pelicano que alimenta seus pequenos filhotes esfomeados, com a divisa “Cáritas”. A caridade e a bondade, antes mesmo da verdade. A bondade na ação ao serviço da doutrina. A Igreja estava precisando de se reconciliar com a sociedade moderna, de por de lado sua atitude de desconfiança diante das ideias novas geradas no século XIX. Também precisava de renovação interior. É nesta linha que o bispo de Nancy tenta reformas audaciosas na sua diocese.
No dia 19 de novembro de 1866, todavia, Lavigerie aceita o arcebispado de Argel. (Nessa altura, politicamente, a Argélia era província francesa),
Aos 41 anos, a pedido do Marechal Mac-Mahon. Responderá: “Após ter refletido ponderadamente e orado a Deus para me esclarecer sobre o que responder a Vossa Excelência sobre o pedido tão inesperado que me dirigiu anteontem, venho dizer meu pensamento com toda franqueza.
Nunca teria sonhado deixar uma diocese que amo profundamente, e onde comecei muitas obras; e se Vossa Excelência me tivesse proposto uma Sé mais considerável que a de Nancy, minha resposta seria certamente negativa. Mas aceitei o episcopado somente como uma obra de dedicação e de sacrifício.
Propondes-me uma missão penosa, laboriosa, uma sede episcopal que, sob todos os pontos, é inferior à minha, e que carrega com ela o exílio, a renuncia de tudo o que me é caro. Um bispo católico, senhor Marechal, pode responder unicamente uma coisa a semelhante proposta: aceito o doloroso sacrifício que me é ofertado, e se o Imperador faz um chamado à minha dedicação, não hesitarei, se bem que me custe…”
Explica a seus amigos bispos, surpreendidos por sua preferência pela terra de Argel: “Qual motivo posso ter, diante de Deus, para recusar tal chamado? Tenho a juventude, o dom da palavra, o de conciliar as vontades e o de juntar recursos… Sei a que renuncio; sei também que posso encontrar grandes obstáculos e me fatigar totalmente. Mas creio não poder fugir ao que a providencia me pede… “
Descoberta em 1844, reanimada na Síria em 1860, sua vocação missionária encontra seu terreno: Argel. Olha imediatamente em direção da África inteira: “A Argélia é uma porta aberta sobre um continente de duzentos milhões de almas”.
Suas preocupações são dirigidas, em primeiro lugar, aos muçulmanos; mas já em 1868 é nomeado Delegado Apostólico do Saara e do Sudão.
Suas relações com o governo Frances estão longe de ser serenas. Desde sua chegada a Argel reclama a liberdade de “passar fazendo o bem”… como anunciar na África a salvação trazida por Jesus Cristo, esta salvação para todos? Como anuncia-la nas situações concretas de miséria, de ignorância, de escravidão deste continente?
Em 1867 uma fome devasta a Argélia: o arcebispo abre orfanatos onde recolhe jovens árabes e Kabyles. Precisa de apóstolos, de missionários, homens de dedicação acima do comum. Uma convicção que lhe impõe: precisa fundar um Instituto de Missionários. E funda.

Em resposta a seus chamados na Europa, alguns candidatos vindos da França, Bélgica, Holanda, Alemanha e Inglaterra se apresentam. Assim nasceu, desde as origens, um dos carismas da nova Sociedade Missionária; comunidade internacional. E no dia 19 de outubro de 1868 abre-se o primeiro noviciado dos Missionários de Nossa Senhora da África”, os “Padres Brancos”. O nome vem do “bornous e da gandouras” de lã branca dos árabes que adotaram como vestimenta. Esta comunidade torna-se, em 1984, a Sociedade dos Missionários da África.
No ano seguinte Lavigerie funda a Congregação das irmãs de Nossa Senhora da África.
Note-se de passagem que o papel apostólico das Irmãs sempre foi de suma importância no plano de Lavigerie. Para ele, a transformação da África, indivíduos e sociedade, é possível somente se as mulheres africanas forem educadas e evangelizadas. Esta obra necessária postula que algumas mulheres se consagrem a isso.
“Apesar do zelo dos missionários, seus esforços nunca produzirão frutos suficientes se não forem ajudados pelas mulheres, apostolas junto às mulheres”. De fato, é pela mulher que se transforma a sociedade: “A mulher é a origem de tudo, porque ela é a mãe. Suas crianças são o que ela faz delas. Depõe nas suas almas a semente que nada destrói e que germina apesar de todas as forças contrarias. Então, pouco a pouco, pelas mulheres, tem-se a família e, pela família, a sociedade. È por isso que, nos últimos anos de sua vida, Lavigerie dedicar-se-á a promover eficazmente o apostolado das Irmãs, “mais importante do que o dos próprios homens”.

VI – APOSTOLO DA ÁFRICA

Com seus missionários, sacerdotes, irmãs, irmãos, o “Apostolo da África” empreende uma tarefa religiosa, humana e social, a favor da dignidade dos homens e dos valores africanos. A meta será sempre a transformação da África pelos próprios africanos.
Consciente das provações que os missionários encontrarão no coração da África para onde irá envia-los, Lavigerie é severo na admissão aos seus institutos. Nas cartas de recomendação em que apresenta um candidato, escreve: “Bom para mártir”. Depois diz: “Aceitas?”. A resposta não se faz esperar: “É por isso que vim!”. Lavigerie não deixava por menos.
O Delegado Apostólico não ficou inativo. No fim de 1872 envia seus primeiros missionários para ocupar Laghouat, no Saara, com as instruções claras de preparar a travessia do deserto.
Três anos mais tarde, pareceu-lhe chegada a ocasião favorável. Os padres Paulmier, Ménoret e Bouchaud deixaram Metlit e dirigiram-se para Tombouctou (no Mali atual). Ultrapassaram apenas In Salah. Alguns dias depois, a terra Arida do Saara beberá seu sangue missionário: foram vitimas de seus guias, os “touaregs”.
O bispo de Argel, profundamente comovido, quis, todavia, anunciar a noticia aos noviços missionários de Nossa Senhora da África cantando o “Te Deum” em sinal de alegria.
Este revés sangrento não desanimou o fundador nem seus filhos. Visto que as autoridades francesas se opunhavam a nova tentativa por este lado, tentaram abrir outro caminho que passando por Ghadamés e Rot, na Tripolitânia líbia, os conduziria ao alvo. os padres Richard, Pouplart e Morat, designados para esta expedição, conheceram sorte idêntica à de seus companheiros: foram massacrados, por volta do dia 20 de dezembro de 1881, após um ou dois dias de marcha… Somente em 1895 o padre Hacquart conseguirá criar os postos de Segou e Tombouctou, partindo pela costa ocidental.
Há dezessete anos que seus companheiros trabalhavam na região dos lagos Vitoria e Tanganica. De fato, já que o caminho do coração da África estava fechado do lado do Saara, desde 1878 as caravanas missionárias se sucederam em direção aos Grandes lagos e à África do leste, em inicio de exploração. Lavigerie lê com paixão os relatos das explorações de Stanley e de Levingstone. Seu coração de apostolo abre-se de tristeza e vergonha, lendo as devastações que a escravidão faz nestas populações.
“Num mercado perto do Lago Tanganica, seiscentos presos estão pra ser vendidos. A fim de captura-los, trinta lugarejos foram incendiados e ensanguentados. Stanley visita um campo de dois mil e trezentos cativos: era o saque de cento e dezoito lugarejos, aniquilados pelos Árabes! Para fazer um escravo, matam-se de cinco a dez pessoas – relata Livingstone, que ajunta: “O espetáculo que tenho diante dos olhos é tão revoltante que faço tudo para fazê-lo desaparecer de minha memória. Mas as cenas da escravatura surgem diante de mim e me acordam durante a noite em sobressalto, seiscentos escravos para vender, traficantes árabes passam de um em um, tateiam os músculos, abrem as bocas, inspecionam os dentes, fazem correr homens, mulheres e crianças para apreciar sua resistência e agilidade. Alguns dias mais tarde, num caminho batizado de esqueletos humanos, os infelizes enfrentam um novo calvário. Carregados de marfim ou de copal, as carnes machucadas pelas cadeias ou pelos enormes garfos de madeira que lhes encarceram o pescoço, são conduzidos a Bagamoyo, perto do Oceano Indico: mil e quinhentos quilômetros de pavores e de feridas, de privações e indizíveis sofrimentos”.
Quem irá em socorro destes homens e destas mulheres, filhos de Deus, por quem Jesus morreu? Quem os defenderá, quem lhes levará esperança e curará suas feridas? Quem transformará os corações para que estes horrores não se repitam mais?
Lavigerie desdobra um mapa da África. Olha. As costas são claramente marcadas, com seus portos e algumas aldeias grandes nas proximidades. Mas no interior, uma imensa mancha branca. Aqui e acolá o traço indeterminado de um grande rio, um lago, a indicação da “capital” de alguns desses numerosos “reinos”, efêmeros e misteriosos.
Deve engajar seus filhos, os Missionários de Nossa Senhora da África, nesta aventura.
O bispo lê novamente, retoma, anota os relatos dos exploradores, faz as listas das coisas necessárias, dos remédios a levar, classifica as dificuldades, prevê as soluções, calcula o dinheiro que isso vai custar.
Inclina-se de novo sobre o mapa, cujo vazio lhe da vertigens. Levanta-se, anda a grandes passos pelo seu escritório, volta em direção do mapa, retorna às pagina do livro de Livingstone.
Realmente, é uma loucura! Mas como deixar estes homens na miséria e nas trevas sem nada fazer para liberta-los? Os olhos do bispo caem sobre a grande cruz de seu genuflexório: ajoelha-se, a cabeça entre as mãos… Levanta-se. A decisão está tomada: é preciso partir. Os sacerdotes e irmãos vão em primeiro lugar; as irmãs seguem após.
Lavigerie não enviava seus filhos para uma aventura. Providenciava os recursos materiais indispensáveis e garantia úteis proteções após reuniões com as autoridades francesas, inglesas e com o rei dos Belgas. Ministrava a seus missionários instruções preciosas, onde conselhos de vida espiritual e de higiene se juntavam às instruções de apostolado, com uma notável lucidez.
“Começarei, como é natural, falando-vos das disposições espirituais que devereis ter e em que devereis permanecer. De fato, tudo, absolutamente tudo depende disso. Não convertereis nem santificareis ninguém se não começardes primeiramente a trabalhar corajosamente em vós mesmos, na vossa própria santificação”.
Para ser um apostolo, é preciso estar firmemente persuadido de que não há meio termo entre a santidade completa, ao menos desejada e buscada com fidelidade e coragem, e a perversão absoluta…”.
Não sois exploradores, nem viajantes, nem turistas, nem sábios, nem seja lá o que for; sois apenas garimpeiros de almas “…
Ousarei dizer que, para tão grande obra, é preciso ter muita fé sobrenatural, para confiar na intervenção direta de Deus, e ousar pedir-lhe milagres. Fé, muita fé, é tudo o que precisais para conseguirdes isto.
No dia 24 de março de 1878, os padres Charmetant e Deniaud embarcaram para Marselha para Zanibar, onde deveriam organizar a caravana e conduzir os missionários até o centro do continente. Não era um trabalho fácil. Nenhuma via fluvial, nenhum caminho: simples picadas, em que um seguirá atrás do outro. Era bem antes da invasão da África pelos poderes coloniais. Não havia meios de transportes, e a carga era levada sobre a cabeça e as costas de homens marchando a pé, correndo o risco de encontrar ladrões no caminho, ou pegar febres mais malfazejas ainda. Estes obstáculos impediam, ate então, o acesso ao interior aos missionários católicos. Melhor equipados, os pastores protestantes desde cedo tomaram posição perto das margens dos lagos Vitoria e Nyanza, do Tanganica e do Niassa. Alguns exploradores os precederam. Quanto aos árabes escravagistas, fiscalizavam o comercio e ocupavam solidamente certos pontos estratégicos. Todo aquele que desejasse circular nestes lugares devia contar com eles e munir-se de um salvo-conduto do Sultão de Zanzibar, que era então Said-Bargash. Em consideração às recomendações dos cônsules Frances e inglês, o mestre de Zanzibar deu aos missionários as autorizações necessárias.
No dia 17 de junho de 1878, a primeira caravana partiu deixando Bagamoyo, caminhando em direção dos Grandes Lagos. No dia 19 de agosto morreu o Padre Pascoal, primeira vitima das missões na África Central.
Cem dias depois da partida de Bagamoyo chegam a Tabora, grande quartel-general dos escravagistas da áfrica equatorial. Estão abatidos: doenças como: disenterias, dores nos olhos, veias em fogo. A partir de Tabora, os pioneiros separam-se em dois grupos. Os padres Danizud, Dromaux, Delaunay e Augier continuam sua marcha em direção a Oeste e atingem o Lago Tanganica no dia 22 de janeiro de 1879. Os outros, Lourdel, Girault, Barbot e irmão Amans, sob direção de padre Livinhac, caminham decididamente em direção do Norte. Somente em junho verão o lago Vitoria, quatorze meses depois de terem deixado Marselha.

VII UM GRANDE CHEFE

Enquanto seus missionários de Nossa Senhora da África sofriam e morriam nos caminhos dos Grandes Lagos, Lavigerie, no seu escritório de Argel, espera impacientemente por notícias. A primeira caravana abriu pistas a uma segunda, que se organizava para partir utilizando as primeiras informações recolhidas. Lavigerie esforça-se por melhorar os preparativos.
Por certo gostaria também ele de partir com seus filhos, na linha de frente, mas não é este o seu dever. Ele deve ficar em seu posto de referencia para dirigir, prever, arranjar o dinheiro e os meios, formar os homens, alertar os governos. Numa palavra organizar a missão.
O pensamento da escravidão o assedia. Quer opor-se a ela custe o que custar. Se preciso for até pela força. Recruta alguns “bons cristãos” que tinham servido a causa do Papa quando precisara defender seus Estados. Deles fez uma espécie de milícia religiosa, armada de fuzis, e encarregada de atacar, se for preciso, os escravagistas, para lhes arrancar suas presas humanas. Seis dentre eles partem com a segunda caravana, acompanhando doze missionários.

VIII _ HORROR E REPROVAÇÃO À ESCRAVATURA

Por ocasião da partida da segunda caravana para a África equatorial, no dia 20 de junho de 1879, Lavigerie pronuncia uma alocução na catedral de Argel: “ Meus caríssimos irmãos! Que se possa, em teoria, discutir sobre o grau de injustiça que representa a venda de um homem, não o nego; mas na prática, quando se vê a que ponto de crueldade a escravidão africana conduz o carrasco, a qual grau de sofrimento e de humilhação se condena a vítima, pode haver somente um grito, um grito de horror e reprovação nos lábios humanos. Em vão os poderes da terra se uniram para abolir o trafico desumano que ensanguenta a África. Seus esforços são impotentes. A escravidão continua, estende mais e mais sua devastação. Seja porque as medidas se mostram insuficientes _ pois atingem somente os que vendem e não molestam os que compram _ seja porque o mal tem raízes muito profundas para poder ser curado pela mão do homem. A escravidão está aí, e os relatórios dos últimos exploradores das regiões equatoriais estão cheios destes horrores. Não são hoje apenas os estrangeiros. Os próprios negros, sem formação, sem se importar com o próximo, se tornam os artífices da própria ruína. Quanto uma alma humana se avilta, quando não encontra, numa luz mais pura, a força para combater as brutalidades da natureza!
Então, o que é preciso, é fazer compreender a estas populações, tão indignas aviltadas, a impiedade do seu erro; ensinar-lhes que o homem é irmão do homem, que Deus, criando-o, lhe deu a liberdade de sua alma e a liberdade de seu corpo, e que Jesus Cristo lhes devolveu, quando o mundo estava sob universal escravidão, e que não achou cara a restauração destas liberdade santa, pagando-a o preço de seu sangue.
Ide, meus filhos, ide ensinar-lhes esta doutrina. Dizei-lhes que este Jesus que mostrareis na cruz, faleceu sobre ela, para dar todas as liberdades do mundo, a liberdade das almas contra o julgo do mal, a liberdade dos povos contra o julgo da tirania, a liberdade de consciência contra o julgo dos perseguidores, a liberdade do corpo contra o julgo da escravidão!
É esta liberdade que São Paulo proclama em Roma onde reinava Nero e onde dois milhões de escravos estavam nas cadeias. “Não há mais entre nós, dizia ele, nem negros, nem bárbaros, nem escravos, nem cidadãos; sois todos irmãos, sois todos livres da liberdade que recebestes de Cristo” (Gal.3,4). Proclamareis, tal qual o grande apóstolo, no meio de tantos povos humilhados sob o julgo, a santa liberdade que vem de Jesus Cristo.
Vossa voz retinirá como um trovão, ou melhor, fará brotar, nas trevas ensanguentadas, a esperança e o amor.
As instruções de Lavigerie são claras: cuidar da libertação de nossos irmãos homens.
Mas os missionários terão que enfrentar também dificuldades de outra ordem. A viagem pelo continente durará um ano inteiro: caminhos impossíveis através do mato, chuvas torrenciais, falta de água potável, mosquitos, febres, exigências exorbitantes dos pequenos reis para se atravessar seu território, roubo de pacotes, deserção dos carregadores, marchas forçadas no meio dos desertos ardentes ou dos pântanos lodosos, assaltos contra as caravanas. As caravanas eram dizimadas pelas doenças e pela fraqueza. Dos dezoito homens da segunda caravana, oito faleceram no caminho sem poderem começar a evangelização, embora felizes por oferecerem suas vidas para a salvação e libertação da África. Nesses tempos heroicos, a média da “idade missionária” era de três anos! Mas chegaram ao centro da África, e as primeiras missões foram fundadas.
Lavigerie recebe estas noticias com o coração apertado, mas sua decisão estava tomada: nada o faria retroceder. Organizava caravana após caravana.
E no centro da África?
Propor a verdade, a justiça, a dignidade do homem não agrada aos traficantes de escravos que, em Uganda, conseguem colocar o rei Mutesa contra os primeiros cristãos. E as missões, em 1886, tiveram seus mártires: vinte e dois moços recusaram-se a renunciar a Jesus Cristo e preferiram ser queimados vivos por Jesus…
Para que o mundo inteiro honrasse estes africanos mortos como heróis da fé e que servem de guia aos seus irmãos, o Cardeal Lavigerie revolve céus e terras; vai à Roma pedir que sejam inscritos entre os “bem-aventurados”. Mais tarde a Igreja poderá festejar os mártires africanos que reviveram as proezas dos primeiros cristãos. Estes 22 mártires “baganda” foram canonizados em 1964, durante a terceira sessão do Concílio Vaticano II.

IX __ CARDEAL PRIMAZ NA ÁFRICA

A partir de 1876, dois padres e um irmão passaram a cuidar da capela edificada sobre a colina da Cartago, em honra do rei São Luis.
Lavigerie fora designado administrador religioso da Tunísia. Assim, o bispo Lavigerie era administrador de Túnis e de Constantine, arcebispo de Argel, Delegado Apostólico para o Saara, o Sudão e a África equatorial. Uma imensa tarefa.
Sua inteligência maravilhosa, seu grande coração, suas influencias, tantos trabalhos e sofrimentos pela Igreja, fazem com que se pense em nomea-lo Cardeal. Era o ano de 1882. Lavigerie não se esquivou. Este título lhe permitirá estender sua ação, agir melhor e mais rapidamente. E não era mais do que justo que o grande continente africano tivesse um representante no Sagrado Colégio? Seria uma honra para a África em sua pessoa. Esta África pela qual deu toda sua vida.
Se, em alguns anos, já multiplicara os postos avançados dos missionários de Nossa Senhora da África na Argélia, a Tunísia faz parte agora de um grande projeto. Cartago fora outrora a sede de uma Igreja florescente. havia na Tunísia dezenas de pequenos bispados, contando com milhares de cristãos. Desejava ressuscitar Cartago, construir uma grande catedral, criar de novo ali a sede Primaz da África. O Papa aceita. Lavigerie põe mãos à obra e consegue. Em 1884 foi nomeado Arcebispo de Cartago, Primaz da África.

2ª parte
A TÁTICA DO GIGANTE DO APOSTOLADO PARA A LIBERTAÇÃO INTEGRAL DO HOMEM

I “APÓSTOLO E NADA MAIS!”

Como devem ser, no entender de Lavigerie, os missionários que envia? Ele repetirá, sem se cansar, que não são turistas, nem exploradores, mas apóstolos; nada mais que isso.
“O que é preciso – escreve numa carta aberta – são homens animados de espírito apostólico, isto é, homens de coragem, de fé, de abnegação. Não prometo, na verdade, nada do que promete o mundo, mas exatamente o contrário: a pobreza, a abnegação, todos os riscos de países quase desconhecidos e até hoje inacessíveis e, talvez, no fim de tudo isso, uma morte de mártir. É precisamente isto o que me faz confiar que o meu chamado será ouvido. Nosso Senhor não dizia coisas diferentes do que aqui repito em seu nome, e os apóstolos o seguiram”.
Em março de 1884, escreveu: “O amor de Deus e das almas me animou no meio das dificuldades e dos trabalhos que desgastaram minha vida antes da hora. É também ele que vos dará força, abnegação heroica, a perseverança necessária para livrar da morte, pouco a pouco, os povos aos quais sois enviados.” E quando se questiona o que suas concepções de Missão são sempre atuais.
Lavigerie via com precisão as necessidades concretas da África e dos africanos, tal como era possível concebê-las no século passado, numa época em que, para os europeus, a África era, em maior parte, “terra desconhecida”. Os princípios de evangelização e de apostolado enunciados por Lavigerie supõem hoje muitas adaptações. Mas nada impede que as orientações dadas aos primeiros missionários da África mostrem que o antigo professor da Sorbonne aprendera as lições da história, e concebera a Missão da Igreja sob um ângulo tão amplo que se torna profético.
Toda a formação “progressista” anterior a Lavigerie encontra aqui seu pleno desabrochar. O carisma apostólico do fundador soube aliar o dinamismo missionário da Igreja a uma leitura inteligente dos sinais dos tempos, isto é, os sinais providenciais de uma época histórica. Esse dinamismo apostólico tornou-se o dinamismo de seus filhos.

II – EM COMUNIDADES

Em primeiro lugar, o trabalho missionário deve ser obra de “equipe”, sobretudo quando a empreitada é difícil, o desânimo da solidão está a espreita, e a continuidade da obra deve ser assegurada.
Os missionários, diz Lavigerie, nunca poderão renunciar à vida em comum, tendo, como unidade de base, três membros e, como símbolo, “um único coração unidos em pensamento. Esta regra de três é sancionada em termos enérgicos, sobre os quais chamo toda a vossa atenção:”jamais, em nenhuma casa e sob nenhum pretexto, por maior que seja, os missionários poderão ser menos do que três, padres e irmãos, em suas casas. Recusareis os oferecimentos mais vantajosos, os mais urgentes, mas não podereis faltar a esta exigência. É preferível renunciar à própria existência da sociedade do que a este ponto capital”.
E num dia de outubro de 1889 escreveu: “Ficarei profundamente descontente se dispensardes vossos confrades, contrariando a regra que vos obriga a viver em comunidade com três, juntos”.
Uma equipe será sempre mais rica, mais forte, mais segura do que um homem isolado.
A ambição de Lavigerie era poder dizer e falar-se de sua “pequena sociedade”, que “ao menos é católica por excelência”. Sacerdotes, irmãos e também freiras constituem comunidades que integram, na África sobretudo, membros de diferentes raças e nacionalidades. E hoje, o africano, membro da Sociedade, é convidado a deixar sua terra natal para ir a outro país africano, e assim testemunhar, ele também, este valor evangélico. A internacionalidade é um vigor e um enriquecimento na vida do missionário. É uma força apostólica, e um testemunho de desinteresse e de catolicidade; é também uma escola de conhecimento e de estima mútua, na medida em que somos diferentes uns dos outros. Desde o inicio da formação esta orientação é dada. (É por isso que no Brasil, na periferia de Curitiba, em Pinhais, como em cada país, existe somente a primeira etapa da formação – filosofia ou profissão preparatória para as etapas de formação internacional do noviciado, do estágio na África e da teologia…)
Graças a esta experiência, os missionários enriquecem-se individualmente, e a Igreja da África, para onde são enviados, se beneficia desta riqueza. Assim se evitam também os sinais exteriores de tal ou tal igreja da Europa, da America ou da África. Quem ganha é a universalidade da Igreja.

III _ ADAPTAÇÃO: O PRIMEIRO DEVER

Ser apóstolo é “fazer-se tudo para todos” segundo o preceito de São Paulo. “É escreve Lavigerie, o espírito dos apóstolos que não fizeram outra coisa nas suas pregações, que não mudaram os usos ou a língua de nenhum povo, que quiseram mudar unicamente seus corações. Mais ainda: eles mesmos se submeteram às diversas línguas e costumes, a fim de que seu ministério fosse mais eficaz, segundo a palavra mesma de São Paulo: “eu me torno tudo para todos para poder salvar todos.” (I Cor. 9,22)
Lavigerie tomara como divisa episcopal: “Caritas”. E, em Nancy, a comentara na sua primeira carta pastoral. Para alguns, o primeiro dever é defender a integralidade da fé dando ênfase à verdade; para ele, este primeiro dever é a caridade: caminho da paz atinge os corações para abrir à luz, fora de toda tensão, de toda reivindicação, de toda intransigência.Esta caridade ele a exige de seus missionários: devem se aproximar dos africanos “por tudo o que é compatível com a fé e a moral cristã”. Adaptação a mais total possível: “Sem ela, não há obra em profundidade. Adaptação aos povos evangelizados em todos os hábitos exteriores: roupa, habitação, comida. Adoção da língua local excluindo qualquer outra”. Então o missionário será africano com os africanos, e mais precisamente: murundi com os barundi, muganda com os baganda, mufipa com os Wafipa. Numa palavra, os princípios da pastoral do diálogo preconizado hoje: buscar o homem onde ele está, tal qual é; reconhecer sua grandeza.
Lavigerie não sabia, concretamente, muitas coisas da sociedade africana, e algumas das suas orientações provam isso: habitação, comida, roupa.
Mas a adaptação era um princípio de base, para depois os missionários fazerem a sua aplicação. Por exemplo: Se para a saúde do europeu não é possível viver como um indígena, aos menos os missionários terão o dever de ser pobres com os pobres, alojados e nutridos pobremente. “A missão, lhes lembrava Lavigerie, pode subsistir somente na pobreza.”
Outro exemplo ainda: A adoção das línguas africanas conduziu os missionários da África a uma redação rápida, forjando uma grafia de léxicos, dicionários, gramáticas, etc… O primeiro catecismo em Kiswahili é de 1884; o primeiro dicionário Frances Kiswahili é de 1885. Coleções de costumes e tradições vêm em seguida. Estes trabalhos, com o estudo atento da história, dos costumes, das lendas e tradições próprias de cada tribo, são enviados fielmente ao Cardeal e, após sua morte, aos responsáveis pela Sociedade dos Missionários de N. Sra. da África. São preciosamente conservados nos arquivos e fazem a felicidade de muitos pesquisadores africanos que descobrem nisso uma parte da história e da cultura, de seu país.
Quem diz adaptação, diz nova maneira de ser entre um povo, para ser nele o fermento de Cristo Ressuscitado. E este cuidado de enraizamento na vida dos povos deve traduzir-se pela simplicidade das relações com eles, pela partilha das alegrias e dos sofrimentos, pelo esforço para viver tão perto deles quanto possível. O enraizamento numa igreja local, na disponibilidade para responder ao chamado bispo. Uma verdadeira adaptação, insistia Lavigerie, precisa enraizar-se em Cristo.

IV – DIALOGO

Ser apóstolo é ultrapassar as barreiras dos preconceitos, encontrar o outro tal qual como é, respeitando-o.
A vontade persistente de Lavigerie, as origens de sua Sociedade, a tradição de um longo apostolado nos meios mulçumanos africanos, são os pontos-base da vocação particular de seus filhos em direção ao mundo mulçumano.
Eles devem favorecer a abertura ao dialogo entre muçulmanos e cristãos, em todo lugar onde se encontram.
Todos sabem que as relações do mundo cristãos e do mundo árabe-muçulmano não foram de todo agradáveis, ao longo dos séculos. A memória dos cristãos guarda ainda a lembrança das cruzadas. O confronto entre a meia-lua faz parte dos esquemas mais ou menos conscientes de nossas civilizações…
Lavigerie, com sua caridade, suas instruções aos seus missionários, favorece a abertura, o encontro com o islamismo: “ É preciso começar dando esta marca de condescendência, tornado-se, por assim dizer, semelhantes a eles, adotando sua maneira exterior de viver”. Insistia na partilha e na convivência, “fazendo-se tudo para todos”.
Esta atitude de dialogo foi consagrada pela Igreja na declaração sobre o Islamismo, “Nostra Aetate”, durante o Concílio Vaticano II, na elaboração da qual colaboraram alguns Missionários de Nossa Senhora da África. Mais tarde a “Ecclesiam suam” traduzia nos textos a atitude adotada há muito tempo na Argélia e na Tunísia. Durante o Concílio, no dia de Pentecostes em 1964, Paulo VI criava o Secretariado para os Não-Cristãos; chamou um dos missionários do Cardeal, o padre Cuoq, para animar a seção “islâmica”, reformar e desenvolver a consciência cristã em relação ao islamismo, empreender o diálogo entre os muçulmanos. Ainda em 1964, nasceu em Roma o Instituto Pontifício dos Estudos Árabes, pela transferência do “La Manouba”, vindo da Tunísia, onde foi fundado pelos Missionários da África.
O diálogo islamo-cristão é uma obra preciosa entre todas. Mas é dificultada pelo peso do passado e pelas prevenções seculares… O diálogo deve encaminhar-se, na medida do possível, para um encontro espiritual… a cargo do Espírito santo.
Ajudar espiritualmente os que querem ficar na sua religião: neles trabalhará a graça de Cristo. O missionário de Nossa Senhora da África deve ser cooperador desta graça, deve ser, aos olhos deles, o sinal do Cristo. Deve também guiar os que Deus favoreceu em sua graça, até a adesão explícita e visível ao Cristo e à Igreja. Deve ir ao encontro dos crentes do islamismo, com respeito à sua fé e sua liberdade. Neste espírito de diálogo busca experiência religiosa, para enriquecer-se e enriquecer os outros.

V_ CATEQUESE PROGRESSIVA

Ser apóstolo! Isto quer dizer também fundar firmes comunidades cristãs. Foi graças a seus conhecimentos da tradição que Lavigerie, pessoalmente, redescobriu a importância do catecumenato para a implantação da Igreja na África, e o impôs como método de apostolado.
Após algumas considerações sobre a semelhança existente entre a igreja primitiva e o trabalho dos Missionários na África equatorial e a decidir, em virtude deste poder, em vista da situação moral das populações que os padres devem evangelizar, que a antiga disciplina da Igreja, que nunca foi formalmente suprimida, será rigorosamente seguida pelos nossos missionários.
Dar aos africanos um ensinamento e uma formação religiosa que os conduza, livremente e por degraus, até Deus, de maneira que a graça tenha o tempo de retificar e transformar, e que a “conversão a Cristo” seja verdadeira e estável”.
Daí resultam também as diretrizes de Levigerie sobre o ressentimento da disciplina do catecumenato, tal como era praticado nos primeiros séculos da Igreja: quatro anos de catecumenato antes do batismo.
Como regra prática, os missionários devem seguir um método progressivo, e estabeleceu três graus distintos entre os convertidos:
O primeiro grau – o dos postulantes – compreende o ensino das verdades de ordem natural, esclarecidas pela revelação.
O segundo – o dos catecúmenos – permitirá a exposição das verdades essenciais do cristianismo, mas sem falar do culto e dos sacramentos, alem do batismo.
Enfim, o terceiro grau – o dos fieis – não terá mais segredos.
De uma maneira geral, exige dois anos, tanto para os postulantes como para os catecúmenos. É somente ao fim destes quatro anos que se pode conferir-lhes o batismo.
Esta maneira de organizar o catecumenato, dando uma catequese progressiva, parecia novidade. Fizeram-se objeções, mas Lavigerie respondeu: “Que os padres não se deixem impressionar por ideias que lhes parecem novas, somente porque ignoram a história do apostolado primitivo, algo tão antigo como a Igreja mesma”. De fato, guiada pelo Espírito Santo, a Igreja foi levada, no segundo e terceiro séculos, a organizar o catecumenato, estrutura nova da Igreja, que respondia a uma necessidade e a uma exigência de sua missão no meio dos homens. No século IV, a Igreja sai vitoriosa das perseguições; as conversões se multiplicam. Preocupada em garantir uma firme formação cristã a todos os convertidos, instituiu o catecumenato, do qual se podem encontrar lembranças em Roma, Cartago, Alexandria, Jerusalém, Antioquia…
Nos primeiros três anos, o catecúmeno devia dar provas de sua vontade sincera de converter-se a Cristo. A segunda etapa situava-se no início da quaresma e terminava na recepção do batismo, durante a grande vigília pascal.
Lavigerie mostra-se um inovador nos métodos de apostolado missionário, com sua volta às fontes e obrigando a um longo catecumenato, como ponto de partida de ação missionária.
Pode-se dizer que coloca, nas suas diretrizes, um ponto de vista eclesial. O que preocupa não é o bem de tal ou tal alma, mas o bem das comunidades futuras fundadas pelos missionários; quer que sejam constituídas por cristãos séria e firmemente formados.
Escrevia a um de seus missionários que lhe falava de sua alegria de batizar: “É uma coisa muito doce poder batizar cedo, como fizeste, almas excepcionalmente bem dispostas, mas é melhor ainda preparar a entrada no rebanho de multidões que serão conduzidas pouco a pouco, e que poderão perder-se devido à antecipação das coisas”.
Importa reconhecer, alem disso, que esta volta às fontes ficou, apesar de tudo, muito superficial na aplicação pratica das diretrizes do Cardeal: os estudos teológicos desse tempo eram pouco abertos à Bíblia e aos Santos Padres, e os missionários tinham limitada preparação para conhecer todo o contexto bíblico e litúrgico que encerrava o catecumenato antigo. Alem da instituição do catecumenato, seguiram o espírito que animava interiormente.
O Cardeal Lavigerie provou sua audácia tentando renovar o catecumenato nas missões da África. Esta audácia, que parece uma intuição do fundador, está hoje completamente na linha das reflexões que suscitaram a teologia da Missão.
A Igreja continua a missão profética, pastoral e sacerdotal de cristo; continua a plantar-se, a edificar-se através do tempo pela fidelidade a esta triple missão. Entretanto, quando a Igreja se implanta num povo novo, deve necessariamente começar pelo longo trabalho de evangelização propriamente dita, isto é, anunciar a Palavra de Deus. Para criar uma comunidade batismal e eucarística plenamente formada, capaz de dar sacerdotes e ser, por sua vez, também missionária, importa ter como base uma comunidade de fé, estimulada pelo espírito do Evangelho.
A casa de Deus nesta terra, a Igreja, pode lutar e vencer as intempéries na medida em que é constituída sobre a Rocha da fé.

VI — A ALEGRIA APOSTOLICA

A alegria espiritual revela o missionário. Lavigerie censura alguns porque, em suas cartas, não falam desta superabundância de alegria nas tribulações, como conhecera São Paulo. desejava que, ao lado das lutas, das dificuldades irradiasse a alegria da implantação do Evangelho no seio de diferentes culturas. sua insistência sobre a necessidade da alegria estimula seus filhos a aprofundar este lema: “Ser apóstolo é irradiar a alegria da fé, da esperança, da caridade e mesmo da cruz. o missionário partilha as alegrias humanas de seu povo; nascimentos, casamentos, amizade; a alegria do doente que sara; a alegria da festa da chuva, da festa das colheitas, da festa da aldeia. Comunga, com seu povo, a busca da felicidade: espírito comunitário, solidariedade, luta pela dignidade e promoção, hospitalidade e partilha, dedicação humana de todas maneiras, oração e submissão ao Deus dos muçulmanos , participação nos ritos sagrados dos animistas. A fé do missionário lhe diz que são muitas as manifestações da ação do Espírito Santo no mundo, e seu coração explode de alegria: “Eu te agradeço, ó Pai, porque, tens mostrado isso aos que não são instruídos.” (Lc 10,27)
A esta visão de fé junta-se a alegria da esperança. Sob seus olhos a salvação se realiza cada dia mais. O Reino se constrói. O Corpo de Cristo se edifica-se. Alegria pela conversão do pecador que se opera vagarosamente, pela transformação das mentalidades; ou de repente, sob a ação do Espírito. Alegria de reconduzir, sobre os seus ombros, a ovelha perdida. Alegria de ver a lavoura que já está madura, ou a alegria mais confiante do semeador que, mesmo semeando nas lágrimas, partilha da alegria do cefeiro que faz a colheita cantando. Alegria invencível da fecundidade espiritual que faz esquecer as dores do parto. Alegria também do amor, testemunhado e vivido, a Deus e aos homens, que unifica a vida dando paz interior.
Deus pode dar aos seus missionários estas alegrias do encontro com Ele na oração e na ação, além das alegrias da gratidão, da confiança, da amizade dos homens aos quais é enviado.
Pode também destinar-lhes alegrias mais austeras, mais difíceis de saborear: as da provação interior, que dá a impressão de que Cristo está ausente. Então, como aconteceu aos discípulos, a tristeza enche seus corações. Mas devem saber que esta etapa é necessária ao envio do Espírito, e que a esperança da volta será de “uma alegria que ninguém poderá tirar de vocês”. (Jo 16,27)
Alegria, enfim __ e não se trata apenas de hipótese – na compreensão, na perseguição, no sofrimento, até no martírio, suportado por Jesus Cristo. Deus lhes dará a graça de se sentirem alegres por serem “dignos de sofrer insultos pelo nome de Jesus.” (At. 5,41)
“aA alegria faz parte da sua vocação, de seu engajamento. Não é uma questão de temperamento: é um dever de apóstolo. A ausência da alegria será uma verdadeira contradição para o mensageiro da Boa Nova. Ela estará presente em toda a sua vida também. Cultive esta alegria. E pergunte-se com frequência sobre a qualidade deste testemunho que você deve à sua Fé e à sua Esperança, que você deve aos outros.

VII __ CONFIANÇA E ABERTURA

Ser apóstolo é, para um missionário, ser um iniciador. Faltará aos missionários europeus, verifica Lavigerie, “esta forte voz do sangue que fazia vibrar São Paulo com a salvação dos hebreus, seus irmãos segundo a carne. Mas os missionários deverão, contudo, ser iniciadores. A obra durável será cumprida pelos próprios africanos, tornados cristãos e apóstolos… É preciso notar que dizemos “tornados cristãos e apóstolos”, e não “tornados franceses ou europeus”. Seria um contra-senso fazê-los europeus…
Como compreender, em nossos dias, estas palavras? Trata-se de torna-los cristãos, sim, mas estes cristãos devem permanecer africanos em todo seu modo de vida. Isso não inclui nem o ensinamento que se lhes deve dar, nem o que chamaríamos, numa palavra atual, de desenvolvimento, que os africanos desejam e para o qual devem contribuir.
Evitar-se-á que os africanos convertidos sejam, de qualquer maneira, separados de seu meio. A questão não é simples: todos os que foram para a África o sabem. É-se facilmente censurados por não ter buscado um desenvolvimento suficiente, como também por ter mudado demais! Mas retornemos ao século passado. Para Lavigerie, impõe-se de um lado, a formação de comunidades de cristãos africanos e, de outro lado, que eles continuem “africanos”, para se tornarem os verdadeiros apóstolos de seus povos e tomar nas próprias mãos o destino de suas igrejas. Visão de futuro!
Formar uma elite de cristãos africanos é trabalhar com os catequistas. O que foi realizado para a formação dos catequistas e o papel extraordinário que desempenharam e continuam a desempenhar na vida das igrejas são a consequência lógica da importância dada a um catecumenato sério e prolongado. Sem a dedicação dos catequistas em quantidade suficiente, um tal catecumenato teria sido impossível. Foi também necessária uma transformação das escolas de catequistas para adaptar a sua formação às novas necessidades das comunidades e às exigências de uma catequese renovada.
Sem a colaboração dedicada dos catequista, a Igreja estaria confinada a alguns setores especiais, redutos da fé, desprovidos de irradiação espiritual.
Era necessário que o pastor se colocasse no meio de seu povo. Um rebanho sem pastor vive na inquietação, na incerteza e no risco de desgarrar-se. Ora, na ausência do sacerdote, nestes postos afastados, o catequista faz verdadeiramente a função do pai espiritual de seu povo. Não somente é ele que recruta e instrui os candidatos para o batismo, gerando-os assim para a fé, mas também realiza junto aos cristãos muitas funções de serviço. Para formar esta elite de cristãos africanos, era imperioso, sobretudo na mentalidade de época, promover um clero diocesano. Em 1893 os missionários de Nossa Senhora da África abriram o primeiro seminário da África central, em Uganda, quando p país tinha somente cinco paróquias.
E, até hoje, na maioria das dioceses, continuam a participar da formação do clero diocesano nos seminários maiores e menores que criaram e entregaram ao clero diocesano.
É este um resultado característico da obra missionária : as igrejas particulares… E as Irmãs de Nossa Senhora da África, na mesma linha, fundaram vinte congregações ao serviço das Igrejas locais, das quais dezoito são agora totalmente autônomas.
A ideia-guia de Lavigerie era a de que a África seria cristã, em profundidade, unicamente através dos próprios africanos. O missionário lança a semente. Outros, como disse Jesus, farão a colheita da messe. “(Jo 4,37) Ainda hoje, somente12% dos africanos são católicos. A messe é imensa e, para o missionário, ela é esta terra ainda sem cultura onde ninguém lançou a Boa Nova.
Com esperança, continua a trabalhar no silencio, adaptando-se constantemente às condições sempre novas da Missão e da África.
Um dos resultados indiretos da formação é verificado nas escolas e, principalmente, nos seminários: formaram uma elite administrativa e política. Esta elite, primeiramente, serviu na administração colonial, mas em seguida, muitas vezes, tornou-se a espinha dorsal da luta pela independência, e o “viveiro” dos dirigentes dos novos Estados.

VIII __ ANÁTEMA SOBRE A ESCRAVIDÃO

Ser apóstolo, enfim, é ligar o desenvolvimento à evangelização; Lavigerie deseja dar aos africanos a libertação apresentada pelo evangelho. Para ele, promoção humana e promoção cristã andam juntas.
Resgate de escravos, construção de orfanatos, escolas, hospitais, dispensários… serão manifestações da presença dos missionários.
Lavigerie fará com que alguns jovens sudaneses, escravos resgatados, estudem medicina, contribuindo assim para dar a África equatorial nova face. O projeto, muito tempo nutrido, não teve a amplidão que o Cardeal sonhara. Houve uma dezena de médicos africanos no seu tempo. Alguns exercera profunda influência no meio. Um deles, o célebre doutor Atiman, radicado nas margens do lago Tanganica, dedicará, durante quase setenta anos, sua competência e sua abnegação a brancos e negros.
Mas a grande obra de Lavigerie, em favor da promoção africana, foi a luta que empreendeu contra a escravidão. Era para ele a grande questão social da África no século XIX, e considerava que a Igreja devia empenhar-se nisso a fundo.
A escravidão, abolida pelas nações europeias, continuava na África. As tensões entre exploradores e missionários não davam descanso ao Cardeal.
A partir de 1878, os relatórios de seus primeiros missionários dos Grandes Lagos, aguçaram sua consciência, avivaram sua “paixão africana”.
Sobre isto fala ao Papa Leão XIII, que lhe confia, em 24 de maio de 1888, a tarefa de lançar uma verdadeira cruzada contra o escravagismo, de esclarecer a consciência mundial acerca desta tragédia inominável.
Na Basílica dedicada a Nossa Senhora da África, lamentar-se-á: “Bispo encarregado pela Santa Sé de evangelizar uma parte das imensas regiões onde a escravidão ainda reina, a denuncio diante dos santos altares…
Em nome da justiça, em nome da humanidade, em nome da minha fé e em nome de meu Deus, lhe declaro uma guerra sem piedade e a amaldiçoo como um anátema!”
Deixando então, durante oito meses, todas as suas obras, percorre a Europa revelando as monstruosas feridas da escravidão, tal qual era ainda praticada na África. Apesar dos esforços dos missionários e das Leis votadas , a escravidão continua. Milhares de homens e de mulheres são acorrentados, batidos, vendidos, assassinados. O escândalo durou demais. Um homem de coração como o do Cardeal Lavigerie não pode suportar por mais tempo.
Enfraquecido pela idade, abatido pela enfermidade, sujeito a desmaios, repetindo que já era hora de morrer, o Cardeal andava por todos os lugares, podendo ser visto em Milão, Nápoles, Londres, Bruxelas, Lucerna, Paris… chamando a cristandade para ir em socorro dos escravos negros que queria tirar do túmulo em que se achavam.
Cria um movimento de opinião que atravessa rapidamente todo o mundo católico; convida à unidade da raça humana, à necessária universalidade do progresso, ao livre destino de todos os povos. Em todo lugar, sua ação é continuada por comissões nacionais que acabarão por agir sobre seus governos.
Embora os europeus não estejam caçando, eles mesmos, os escravos, são cúmplices por essa caça, deixando que ela aconteça e tirando lucros do tráfico: os navios lhe pertencem, e são os plantadores das Antilhas e das Américas que compram a mercadoria humana. nas igrejas, nas salas públicas, nos ministérios, junto aos reis e governantes, o Cardeal advoga a causa dos negros.
Mesmo esgotado, Lavigerie continua. E acontece o inevitável: um dia, numa palestra, sofre um ataque de paralisia. Para, mas a causa será ganha.
Em 1890, os governos europeus, ou por motivos humanitários, ou por motivos políticos, põem-se em ação: dão caça aos navios que faziam tráfico de escravos. Com o tráfico impossível, os saques cessam.
Lavigerie faleceu em 1892. Tinha resolvida o “difícil problema de fazer o bem e, ao mesmo tempo, de divulga-lo”. Quando morreu, a escravatura era algo do passado.

IX __ LAVIGERIE …HOJE!

“Se o Cardeal Lavigerie pudesse reviver, dizia o Papa João Paulo II aos membros do capítulo em 1980, me parece que vos diria de novo, com o mesmo ardor evangélico: “Sejam apóstolos, e nada mais…”
Vossos espíritos e vossos corações são habituados pelas convicções do Cardeal, que queria apóstolos de coração inflamado e profundamente enraizados na vida espiritual”…Evangelizar é levar a Boa Nova para toda a humanidade e, pelo seu impacto, transformar de dentro, fazer nova a própria humanidade” (citando a exortação “Evangelii Nuntiandi”). Depois João Paulo ajuntaria: “É mais que nunca hora de missão.”
Quando, em 1844, Lavigerie redigia o prefácio de suas Obras Escolhidas, escreveu: “No fundo, sob formas diversas na aparência, um só sentimento inspirou meus escritos, o que Nosso Senhor perguntou a Pedro: “Tu me amas?” É o que eu escolho como lema: a caridade, o amor de Deus.
Este é o lema que os Missionários (sacerdotes, irmãos e irmãs) de Nossa Senhora da África, tentam hoje como ontem, testemunhar à sua maneira nas estradas da África e do Oriente Próximo, nos seus contatos com os muçulmanos. Inserido-se no meio de antigos povos e de novas nações, pões-se a serviço das igrejas que seus antepassados ajudaram a fundar. Testemunham por sua ação, nas comunidades apostólicas, que os preconceitos de raça e de classe, de nação e de cultura, podem ser ultrapassados em função do Reino de Deus.
É a partir daí que vivem no dia-a-dia, segundo sua vocação e o ministério próprio de cada um, sua consagração comum à Missão.
Nenhuma dúvida de que Lavigerie, se voltasse hoje à terra, se tornaria, com o mesmo entusiasmo e a mesma tenacidade de outrora, o campeão da “Populorum Pro-gressio”, a pedido de Paulo VI. A grande questão social da África não é Maísa mesma do século XIX. Mas, como então, exige o engajamento total da Igreja. Seus filhos espirituais, os Missionários de Nossa Senhora da África, continuam a sua obra. Diante das modernas formas de escravidão – racismo, prostituição, privação da liberdade de expressão nas ditaduras sem imprensa livre, censura `TV e rádio, proibição de reunir-se mesmo para rezar – empenham-se na luta pela defesa dos fracos, dos oprimidos e dos que são marginalizados. Seguindo os passos de Lavigerie, tentam viver o testemunho que une o combate de Jesus Cristo pela dignidade do homem à sua celebração da Páscoa, pois sabem que são enviados para continuar a obra de libertação de Jesus de Nazaré.
A missão avança. Missão difícil, que exclui todo romantismo, que aperfeiçoa os homens na provação.
Os missionários de N. Sra. Da África conhecem, hoje como ontem, a floresta e o deserto. Preferem os subúrbios superlotados das cidades, onde o homem é marginalizados, as favelas miseráveis, onde se agrupam as diversas etnias. Mas encontram-se em Argel ou Túnis, no leste da África e no oeste. São professores e universitários, dirigindo os centros de estudo de línguas, publicando estudos de etnografia ou dicionários, constituindo equipes sociais e pastorais, ajudando na promoção da mulher.

“Os Missionários de Nossa Senhora da África
testemunham por sua ação, nas comunidades
apostólicas, que os preconceitos de raça e
classe, de nação e de cultura, podem ser
ultrapassados em função de Reino de Deus”

“Os Missionários de Nossa Senhora da África
preferem os subúrbios superpovoados das
cidades, onde o homem é marginalizado, (…)
Mas encontram-se em Argel ou Túnis, no
leste da África ou no Oeste. São professores
e universitários, dirigindo os centros de
estudo de línguas, publicando estudos de
etnografia ou dicionários, constituindo
equipes sociais e pastorais”.

História muito pouco conhecida.
Estará no fim?
Ou será a aurora de novos tempos?
Homens e mulheres, adaptam-se há um século às situações sempre novas, de vez em quando perigosas. Cada missionário é um ser entre duas culturas e duas maneiras de viver o Evangelho para ajudar povos diferentes, igrejas diferentes a enriquecerem-se reciprocamente, a saborear as culturas diferentes, a descobrir maneiras diferentes de viver a Mensagem de Jesus. “Sem coração, escrevia Lavigerie em 1884, não se faz nada além de dormir e fechar-se num egoísmo que é antítese da dedicação e da caridade”. que é o que há de mais essencial na vida apostólica. Queria o coração de seus missionários cheio de amor pela África: “Amai a África negra pelas cicatrizes ensanguentadas de sua escravidão, pelos gritos de dor que surgem há tantos séculos, de suas profundezas. Amai a África muçulmana que foi outrora cristã, pelos seus infortúnios passados, pelos seus grandes homens, pelos seus santos. Os Patriarcas amaram até as pedras de Sião, símbolo para eles de tanta esperança. Seguindo seu exemplo, tudo tenho amado na África, seu passado e seu porvir, suas montanhas, seu sol e seu céu, as grandes linhas de seus desertos, as ondas azuis que a banham…
Possa estes destaques de meu coração, de minha fé, conquistar para vosso apostolado simpatias e reforços novos! Possa minha voz continuar a se fazer entender por vocês!”
Sua voz calou-se muito cedo neste mundo. Mas, do fundo do túmulo, dirigirá as mesmas palavras que repetiu durante tantos anos: “Uma voa grita no deserto: preparai os caminhos do Senhor, na estepe, aplanai uma vereda para o nosso Deus.” (Is. 40,3)
O Cardeal, fundador dos missionários de N. Sra. Da África, pensou um dia que a Divina Providência lhe pedia para renunciar a tudo, para ser apenas Arcebispo de Argel, para ser exclusivamente, sem nenhuma outra dignidade ou atividade extra, o chefe de seus “missionários da África”, totalmente missionário ele mesmo.
O Papa lhe tira esta generosa ilusão.
De fato, Lavigerie foi não somente, como dizia, “a voz do deserto chamando os que devem traçar os caminhos do Evangelho”, mas muito mais que isso: foi missionário pela intensidade devoradora de sua dedicação, e é um missionário em todos os que responderam ao chamado, seguindo o seu carisma.
“Este gigante do apostolado africano, dizia Livinhac, primeiro bispo de Uganda e depois Superior Geral da Sociedades dos Missionários de Nossa Senhora da África, devemos segui-lo de longe e, na medida da nossa pequenez, imitar sua dedicação para a glória de Deus e a salvação dos africanos.”

Í N D I C E

1ª PARTE

A CAMPANHA ANTI-ESCRAVATURA

I – O GRITO DA ESCRAVATURA
II – LIBERDADE E PROGRESSO

III – ESPÍRITO ECUMÊNICO
IV – JUIZ E PROFETA
V – BISPO, MISSIONÁRIIO, FUNDADOR
VI – APÓSTOLODA ÁFRICA
VII – UM GRANDE CHEFE
VIII – HORROE E REPROVAÇÃO À ESCRAVATURA
IX – CARDEAL PRIMAZ DA ÁFRICA

2ª PARTE

A TÁTICA DO GIGANTE DO APOSTOLADO
PARA A LIBERTAÇÃO INTEGRAL DO HOMEM

I – “APÓSTOLO E NADA MAIS!”
II – EM COMUNIDADES
III – ADAPTAÇÃO: O PRIMEIRO DEVER
IV – DIÁLOGO
V – CATEQUESE PROGRESSIVA
VI – A ALEGRIA APOSTÓLICA
VII – CONFIANÇA E ABERTURA
VIII – ANÁTEMA SOBRE A ESCRAVIDÃ O
IX – LAVIGERIE…HOJE!

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